Hoje me permiti fazer algo um pouco diferente aqui no blog. Em vez de um texto mais técnico, decidi escrever um ensaio pessoal, a partir do filme Valor Sentimental, de Joachim Trier.
O filme é sutil e maravilhoso. Tem a Renate Reinsve, que é a atriz principal também de A Pior Pessoa do Mundo, o Stellan Skarsgård, que participa da série Chernobyl, e a maravilhosa Elle Fanning, que de uma forma quase estranha causa um incômodo a sua presença. É muito bom mesmo!
Vamos lá?

O último filme de Joachim Trier fala, mais uma vez, sobre relacionamento.
Se você assistiu A Pior Pessoa do Mundo (2021) e agora Valor Sentimental (2025), já percebeu que o diretor retorna a temas como escolhas e decisões feitas na faixa dos 20 que retornam no momento de maturidade, e também de dúvidas, especialmente na vida de mulheres acima dos 35 anos.
Existe também outro elemento que repete no filme é a figura de um pai ausente.
Em Valor Sentimental, o pai, Gustav Borg, é diretor de cinema e a filha, Nora Borg, é atriz de teatro.
Ela, mesmo sendo a atriz principal e recebendo elogios, se sente insegura, com medo constante de não ser boa o suficiente. Esse vazio tende a se repetir em outros vínculos afetivos e de cuidado pessoal, observando as roupas que ela veste.
Em determinado momento da história, esse pai reaparece. Ele está mais velho. O tempo passou. O corpo envelheceu. Os amigos também. Surgem questionamentos sobre a idade, conversas sobre novas tecnologias e se adaptar ao que o mundo exige, como o roteirista jovem da Netflix quer opinar no seu novo roteiro.
E, como metáfora desse reencontro com o passado, Joachim Trier apresenta uma casa.
Uma casa rachada.
Com parede trincada.
Com problema estrutural visível.
Essa casa não é apenas um cenário.
No filme ele mostra pessoas que já moraram na casa anteriormente, quem construiu, quando trincou, e como foram esses relacionamentos e as dinâmicas familiares ali vividas.
A casa carrega histórias. E também carrega descuidos. Uma frase que a Nora diz quando está apresentando a casa é:
“O que a casa não gostava mais do que barulho era silêncio”
Talvez por trabalhar com house flipping, reforma e arquitetura, meu olhar não conseguiu ignorar isso.
Obviamente o filme não é sobre house flipping. Mas, para mim, ele fala sobre algo muito próximo: o cuidado.
Sobre o que acontece quando uma estrutura fica sem manutenção por tempo demais. Quando brigas acontecem por conta da rachadura e a solução seria mudar e demolir ao invés de restaurar, reestruturar e continuar naquele lar.
E aqui entra a metáfora que me atravessou.
Nem toda casa precisa ser demolida para que um novo começo exista.
Nem toda história precisa ser apagada para ser transformada.
Às vezes, é possível quebrar paredes internas, refazer a elétrica e a hidráulica, reforçar vigas, trocar telhas, pintar. Dar mais apoio e sustentação para que novas histórias possam acontecer ali. Com mais consciência. Mais estrutura. Mais cuidado.
O mesmo vale para as pessoas.
A gente não morre para voltar diferente. A gente segue. Com dores, rachaduras internas e muito trabalho a ser feito. Derrubando conceitos, reformulando pensamentos, entendendo que, muitas vezes, o outro não deu porque também não recebeu.
Mas, acima de tudo, refletindo. Analisando o que aconteceu.O que aquilo ensinou sobre você. Se acolhendo. Perdoando o outro. E também pensando na ação que poderá ter quando aquilo acontecer novamente.
Quando penso em uma casa, penso, claro, na estética, mas muito mais nos cuidados a se ter com o que está invisível aos olhos.
Observar a estrutura. Tirar as folhas da calha antes que ela entupa e dê infiltração. Porque o que está interno, quando rompe, inevitavelmente aparece no exterior. E é mais caro e exige mais esforço para restaurar.
O corpo pede alimentação, movimento, descanso.
A mente pede questionamento, análise, revisão de crenças.
A casa pede manutenção constante.
Tanto o lar físico quanto o ser humano não funcionam no abandono. Funcionam no cuidado contínuo.
Valor Sentimental ainda está nos cinemas, e eu recomendo assistir. Prestar atenção nos diálogos, nos enquadramentos, nos silêncios.
E, se você trabalha com casas — ou mora em uma — talvez perceba que nem tudo precisa ser derrubado para recomeçar.
Às vezes, o que falta não é uma obra nova.
É presença.
É olhar.
É cuidado.
A casa rachada como metáfora emocional em Valor Sentimental. Cuidar da casa, do corpo e das relações é um trabalho contínuo.

E agora me diz: quais foram suas impressões sobre o filme? Eu relacionei com o house flipping, pois é sobre isso que o blog trata, mas o filme pode ter muitas outras impressões de acordo com o que você tem como referência.
Me conta também sobre outros filmes te fizeram pensar sobre a casa, reforma, relações e o cuidado consigo mesmo?
